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Artigos
O outro lado do paraíso
07/12/2009 às 08h15min

O Labirinto

O outro lado do paraíso
Quando a Capital começou realmente a crescer, a avenida Bahia morreu. Nos meados da década de 70, o lugar já era um triste espetáculo para uns e um grande alívio para outros. De suas antigas casas de mulheres, algumas delas velhos solares que o raio partira ao meio, pouca coisa funcionava. Os luxuosos bordéis da Avenida Pernambuco – da Flora Martinez, Luzia Poltrona e Maria Mesquita – que disputavam entre si a primazia de terem em seus salões os coronéis do Interior, entre os quais o perdularíssimo Rui do Peixe, não existiam mais. O dinheiro viera-lhe fácil e sozinho esse Rui era um espetáculo a parte, ao presidir um banquete digno de  uma orgia da Roma pagã. Sem mais, sem menos, com dez mulheres a tiracolo e algumas bichas como damas de companhia, mandava emendar todas as mesas do salão e aí o demônio saía da garrafa e a alegria explodia. Uma enorme melancia retalhada em fatias e reconjuntada na forma de uma moranga sangrenta enfeitava o centro de um aparador atulhado de bebidas e comidas, com as bichas servindo-o na cabeceira da mesa – e a mulherada livre das migalhas da vida naqueles momentos vaporosos – ria à socapa. E a música? Era Carolina mesmo, de Luiz Gonzaga! No mais, casas vazias, sem as suas pequenas e distintas pensionistas de outrora, que haviam desaparecido e substituídas pelas velhuscas sentadas pelos cantos da sala e amargas como amêndoas vencidas, sem desconfiarem que a coisa acabara. Sumiu tudo. Primeiro as mulheres bonitas. Em seguida, os malandros gafiolas que – como os ratos – pulam também fora do barco, ao primeiro sinal de naufrágio, entre eles, alguns de honra como o Flores, o Meia Noite e o Bola Livre. Por último, as velhas e renitentes cafetinas e até a polícia que nada mais tinha o que fazer por ali. Onde estaria agora aquele mulherio vistoso, de rosto cansado e que no final da madrugada vinha tomar um escaldado no Brechó ou o último trago no Salerno? Ninguém sabe, ninguém viu, como bem disse a letra de um samba-canção da época, cujo título foi inspirado no nome de uma delas, Conceição de Tal!

A doença
Sob o signo das demolições que chegaram com os novos tempos, quase tudo veio abaixo, para dar lugar ao comércio de móveis usados e daquelas velhas e ruidosas noites, restou apenas o estigma de ex-rua do pecado. Bom ou ruim, é certo que causou muitos estragos. Virando a página, o patologista especializado lhe apontaria logo o mal que o acometera, sua morfologia e evolução clínica. Com a mudança da Capital Federal para cá, seus tecidos foram alterados e de indiferenciados que eram, acabaram por perder então toda a sua capacidade de diferenciação. Cancerou-se. À noite, a amurada das casas, pontilhada tortuosamente, parecia mais uma linha de praia de um mar em chamas, uma cabeçada de mulo, que muitas filhas arrastou. Era terra de todos e de ninguém – uma lata de lixo – onde a Campinas bem penteada vomitava o que não conseguira digerir. Iam, voltavam e se lavavam para parecerem mais sãos. O cordão de pontos luminosos descia como vibriões rubros às escâncaras da ladeira de mulheres nuas dançando debaixo de chuva e servia de aviso, que bem poderia ser escrito em alemão: Wohngebiet der huren – betreten verboten. Teriam medo de sua prometida violência sexual? Casas e muros leprosos de gente destinada à pobreza, ao alcoolismo e à morte prematura, atacada de vergonhosas enfermidades. Cortesãs baratas, gastas e solitárias, com suas pesadas maquilagens, patrulhavam as ruas embriagadas. Suas colegas mais jovens, como borboletas dançando sobre o fogo da alegria e como ela consumidas em menos de um instante fugaz, trabalhavam em casa, enquanto as mais bem feitas e empreendedoras confraternizavam-se nos bordéis mais respeitáveis e erguiam taças à vida, ao som dos acordes de tangos famosos. Do vazio enganador dos espelhos, se ergue, lento, e como que no vago do horror e escuridão, um rosto: Cain! Ao longe, através da pálida aurora das ruas, passa, em passos de dança, uma mulher que a morte já decompõe. Na esquina próxima, uma prostituta dominadora vestida de vermelho, a rainha urbana de Eros para alugar, percorre o seu território e caça seguida de uma cunha de homens sem rosto, representados numa perspectiva bem pontiaguda. Com os seios pressionados para cima pelos espartilhos, sinaliza a sua disponibilidade para os potenciais clientes, um corpo de tropa, marchando sobre rígidas pernas angulares. São figuras apanhadas irresistivelmente num ritmo cinemático de atração e repulsão sexual; no entanto, com os seus olhos semicerrados em perigosas fendas, ela sugere um grande felino rondando a selva urbana. Quando saía do banho, mais tarde, parecia a Salomé, de Gustav Klimt, ou Danaé, acariciando a si mesma, já que nunca tivera ao seu lado o amor ideal.
 
A realidade
O médico chegava e metia o espectroscópio e o instrumento fazia a imediata resolução da luz dos corpos luminosos. O prisma produzia a refração ou a defração e surgiam as vermelhas, as laranjas, as amarelas, as verdes, as azuis, as violetas, e as índigos puras. Não eram, como se poderia pensar figurativamente, microorganismos patogênicos, mas apenas mulheres a um só tempo fascinadas e repelidas na terra onde nasceram, em busca de outro lugar para viver, exiladas ali naquele mangue perigoso, noivas hesitantes, sedutoras e impenitentes, hipocondríacas, fiéis e apaixonadas pela vida e assombradas pela morte. Elas foram um mistério para si mesmas e para os que tiveram a ventura de conhecê-las. Na seqüência de suas automáticas substituições, quando a vida, as doenças vergonhosas, a febre alta e a morte imprevisível e ubíqua, que se aproximava com seus múltiplos e inegáveis disfarces as disputavam numa trágica corrida para ver qual chegaria primeiro, não declinavam, resignadas, a menor queixa. Caídas ali – como deusas – ex-machina – quem não tivesse uma inteligência privilegiada ou pouca capacidade de adaptação a situações novas à custa de experiências anteriores, não tinha menor chance de escapar à destruição quase imediata. Teriam que ser mais instintivas – inatas mesmo – que independessem de qualquer pré-aprendizagem, como quisera aquele frade moderno, com sua escola de ministrar conhecimentos às recém-chegadas para se defenderem dos cáftens e das doenças venéreas. Esse tal frade era demais. Avançado que era, fora expulso da congregação por ter apresentado uma tese, intitulada o vício solitário como o último baluarte da castidade sacerdotal. Falava que iria organizar uma academia para formação de futuras prostitutas, pois, do ponto de vista da realidade das grandes cidades, as meninas não teriam chance nenhuma a não ser outra coisa na vida lá fora, e não era então melhor prepará-las desde já para saber danças, requebrar, maquilar-se e livrar-se do sistema? Era-lhes impossível localizar os postes de fios condutores de Ariane, para saírem do labirinto minado de armadilhas colocadas pelo monstro triturador da ilha de Creta, que cobrava a vassalagem de uma virgem por dia e multa em espécie pelo não pagamento. Numa noite fôra amante da Rainha de Sabá, Dalila, e da Esposa do Holoferne, sobre o que só o deu Onã, podia apaziguar suas tentações carnais. Seriam todos loucos? Que viviam fora da razão e morando em outro mundo mental numa espécie de pesadelo contínuo, desde um nirvana prasenteiro, quando se elevavam as taças ou o terror da aflição, onírica de dar a luz – em gélidos tremores – a uma criancinha morta? Teriam eles entrado em um poço profundo, de vida manicomial, na qual se entra rápido, mas da qual é difícil sair, pois suas paredes são lisas e escorregadias, como na incompreensão e no abandono sem onde agarrar-se?


O inferno
Um homem mal vestido, pelo simples fato de estar por ali na claridade do dia, o empregador o veria com receio, a polícia pediria-lhe os documentos sempre que o encontrasse como suspeito de ser um vagabundo, um ladrão, e receberia um tratamento que nunca seria dispensado a um cavalheiro de boa aparência, de mãos enluvadas embora esse não trabalhasse, roubasse em seu negócio e também gostasse de ficar alegre. O lugar era tão triste que ali só se ria quando se estava bêbado. Eram apenas alguns quarteirões bem fornidos de casas de meia parede, com corredores internos comuns, passagens e portas secretas camufladas por enormes guarda-roupas escamoteáveis e coalecidas como uma colônia estreptocócica e seu anel sombrio, que ameaçava transformar a cidade num pesadelo ainda mais horripilante e apocalíptico que mais patológica das fantasias pudesse imaginar. Uma deus Khali do Novo Mundo com seus símbolos: caos, ódio, destruição. Mais do que um ambiente de pecados carnais, era sujeira que invadia seus bordéis. Havia eletricidade, mas água encanada era uma preciosidade e odores rançorosos de lixo, urina e sêmen e suor enchiam o ar. Cortinas ensebadas, as roupas de cama empestadas, os espelhos manchados de falhas de aço, as paredes dos quartos mais pobres em ruína e cobertas de desenhos e dizeres obscenos, completavam o quadro de decadência. Com os corpos cobertos de feridas, historiados de cicatrizes, rapazinhos do esgoto e da pancada – ascendidos à condição de leões de chácara e donos de bar, alguns deles de narizes quebrados pela refrega das lutas de rua, braços de orangotango, faziam um pique no instrumento a cada cabeça quebrada. Se o caído era um bêbado, não valia a pena anotar. Podiam dispensar a camisa, o casaco, não o porrete nas mãos e o rosto era menos importante que o corpo bruto. Um, que virou potentado do crime, cobrava subsídios dos bordéis, das casas de jogo, das meretrizes e dos ladrões daquele sórdido feudo. Sua alma tenebrosa sub-arrendava a execução do serviço quando consultado sobre mal feitorias. Eis aqui os seus honorários: 15 cruzeiros por um murro na cara, 20 por uma informação sobre um caso de traição de marido e mulher, 30 para não achacar uma casa, 40 por uma perna quebrada, 100 pelo negócio inteiro. Costumava percorrer seu foragido império com uma pomba de plumagem azul no ombro, parecendo um touro com pinhé no lombo. Às vezes, para não perder a forma, executava pessoalmente os serviços. No pequeno pátio cimentado, viam-se as formas querubínicas do corpo de uma jovem, ainda incrivelmente rosado, salvo algumas marcas arroxeadas nas nádegas, se dirigirem à torneira de água fresca para o banho da tarde ao ar livre. Te cuida, querida, o peludo guardião da moral católica, mas fauno às escondidas, está ali para te espreitar. Gratificado pela visão, entretanto, vai te acusar de teres atentado contra o pudor e por teres perturbado o seus sentidos. Encontrava-se a levedura dessa condição humana no dogmatismo religioso que não permitia à mulher um segundo passo. E a marca da moral católica estava ali: um espelho que reflete ou absolve o seu imoralismo pagão. O erotismo irrompia com toda a pujança e vitalidade da mulher parasidíaca, tornando-a feroz que só o vício do homem é capaz de domar e encarcerar. Expulsa de si própria, ei-la prostada e receosa perante a avidez da vida, de ventre inchado, sentindo vergonha e querendo esconder-se como animal nos matagais. Nem todas, porém, algumas denegridas e espezinhadas, más fortalecidas pela ânsia da vida, rompem as cadeias do cárcere e retorna ao seu estado de pureza primitiva. Tu foste Eva no paraíso, radiante, cercada pelo vento e sem conhecer a vergonha.

A morte
Foi no mesmo feio dia da morte da Jurema, aquela morena de olhos amendoados – a cuyanita do tocador da sanfoninha de caroços e de fole bem pregueado – que os homens chegaram de carro da polícia, um deles de avental e tabuleta nas mãos, e disseram logo porque tinham vindo: a Zona seria fechada. O farmacêutico prático que examinou sumariamente o que restara do esgotado corpo de Jurema, numa casa infecta da então Avenida Pernambuco, emitiu logo seu prognóstico: não fora pneumonia, mas a agudização de uma sífilis crônica que a matara entre grandes e atroses suplícios. Certa ou não a água-fria do prático em farmácia, por suposto, foram as drogas, noites mal dormidas, a violência constante de se entregar a homens a quem geralmente odiava, a verdadeira causa de sua morte. A legião de mulheres e bichas que vieram atarantadas para carpi-la foram concordes em um dramático testemunho. Ela lutou muito. Sua última semana de vida foi de respiração sôfrega, de mãos crispadas sobre o lençol encardido, os olhos arregalados, os peitos a subirem e a descerem em movimentos desordenados, murmurando incessantemente – meus filhos – quando já o cheiro da morte inundava o quarto, começava a sair pela janela e inundar também todas as casas da vizinhança. Afinal o cheiro da toalha, com a qual de vez em quando enxugavam o seu rosto febril, levado pelo vento, era um cheiro já conhecido de todos. A própria Zona morria também e a menos de 50 metros do local, lá estavam os homens com a ordem nas mãos: a Zona seria realmente fechada e dado um prazo de 30 dias pra mudança completa de todos os seus moradores. Inacessíveis à honra administrativa que desconheciam, tiveram as gargantas cortadas no mês seguinte.

Arderam nesse fogo – que não passou de uma verdadeira e inspirada poesia, com o seu nunca fugidio núcleo inequebrantável do mistério da noite – as decaídas das avenidas Bahia, Pernambuco, São Paulo, Paraná, Minas Gerais e das ruas Catalão, Pouso Alto, Benjamin Constant, P-16 e P-20. O livro de seus testamentos virá. Histórias de seus exílios e de seus combates. Não há luz sem sombra. No entanto, as trágicas labaredas que consumiram as suas breves existências são comparáveis à combustão dos meteoros que cortam a escuridão da noite como um fio de luz – um símbolo, um signo, um agouro. Grandes heroínas, umas cem, mil? Vagamente diferentes das fotografias desbotadas, saturadas de fumaça e álcool, tão insignificantes ou esplêndidas como Joana D"Arc, Lady Godiva ou Florence Natingale, com seus denegridos feitos de vida à sombra das casas de luz vermelha do citado perímetro urbano.

Guapó, 16 de julho de 2009
Ribeirão Pereira